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“No dia seguinte ninguém morreu.”

Esta é a primeira frase de um romance que dá ao homem o sonho da imortalidade. José Saramago que já nos habituou a abordar o improvável, e até mesmo o absurdo, neste romance, “Intermitências da Morte”, que muitos de vós já conhecem, anuncia novos tempos com algo muito peculiar: ausência de morte.

Os tempos que vivemos são o inverso no que diz respeito à mortalidade e isso não é ficção, é a dura e muito triste realidade.


Mas, o caos da ficção de Saramago é muito curioso e merece alguma atenção nos tempos que correm. Aquilo que era uma utopia, rapidamente se transformou em distopia. O que é que acontece a um mundo onde não é possível morrer, mas onde se continua a padecer e a envelhecer?


A mudança é tão repentina e tão profunda que o caos se instala na sociedade. O governo enfraquece as suas posses, não sabe como pagar a fatura dos hospitais. Sim, dos hospitais, porque as pessoas não morrem, mas tudo o resto acontece, nomeadamente a doença. O governo não sabe como vai pagar as pensões, nem sabe como vai sustentar as circunstâncias de uma velhice permanente. As funerárias falidas, as famílias desorientadas a articular toda uma logística para cuidar dos seus velhos e enfermos. A Igreja que não sabe como manter os seus fiéis unidos e só a máfia é que está preparada para tirar partido da situação! Esta é a ficção do romance.


Muitos de vocês devem estar a pensar na minha falta de oportunidade, ou excesso dela, em fazer esta reflexão num momento tão difícil para todos nós. Eu também pensei o mesmo, mas ainda assim, decidi avançar porque o que vos quero dizer é bem mais profundo.


No desenlace da ficção de Saramago, a morte é personificada e experimenta o amor. E, é neste momento que tudo muda, no momento em que a morte sente a verdade do amor. É neste momento que ela, a personagem da ficção, decide voltar à sua origem para salvar a humanidade. Depois de saber o que é amar.


Não foi o covid que levou recentemente o grande amor da minha vida, mas podia ter sido. Ao meu pai, ainda foi dada a honra e a dignidade de um herói, num funeral muito participado. O amor mistura-se com a dor, mas é amor. Será sempre amor.


É no amor que está a salvação da humanidade. E, agora, já não estou a falar da ficção de Saramago.

Paula Ribeiro

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